Brincar é coisa séria

Por Luciana Scarabeli 

Brincar é uma grande bobagem que inventaram, e que as crianças fingem gostar. Tudo é uma grande besteira, os adultos ficam sem paciência e as crianças só aprontam, inventam moda e tem ideias mirabolantes para importunar o sossego dos adultos, enquanto deveriam se ocupar trabalhando ou fazendo algo útil. Lugar de criança brincar é na escola, as professoras são pagas para isso, não tenho tempo nem paciência para brincar, fica aquela bagunça e quem guarda depois? Ninguém! Fica tudo jogado pela sala!

Prefiro colocar todos os brinquedos na prateleira bem no alto para ficar organizado, assim as crianças não vão ver e assim não vão pedir nada, ganho tempo para fazer o jantar e não fico irritada, melhor mesmo é quando ficam entretidas no celular ou assistindo televisão, melhor do que jogar bola na sala e quebrar tudo, e nem adianta pedir a ajuda da avó porque se deixar com ela é pior ainda, não dá limite mesmo!

Procurei ser a mais cruel das mães, cuidadora e educadora, nestes primeiros dois parágrafos, mas apesar de ter que fazer um esforço para escrever estas frases, por alguns instantes, pensei como estes pensamentos podem ser uma grande verdade para muitos adultos que convivem com crianças pelo mundo afora. Como é difícil para nós, adultos, entendermos o mundo das crianças, não é?

Vamos então retomar alguns pontos de importância do brincar? Para começar, ele é um ato que propicia aos bebês e crianças a possibilidade de se constituírem enquanto indivíduos, é a oportunidade de serem protagonistas de suas próprias escolhas, aprendendo as coisas do mundo e da sua cultura, tendo relação direta com a sociedade em que o sujeito vive e se relaciona.
Pelo brincar experimentamos as relações com o outro, enfrentamos as situações adversas, do ganhar e perder, conquistar, alcançar, e, formamos grupos de interesse entre os pares. Não há nada dado como certo ou errado: é a construção de trocas e de vivências únicas e de elaboração que a criança tem para externar o que está vivendo.

É pelo brincar também que se faz possível perceber situações de sofrimento e violência em que a criança viveu ou a que está sendo submetida. Nesse sentido, o brincar tem que ser livre de preconceitos e de formas adequadas que precisam ser seguidas, cada agrupamento infantil tem uma forma de brincar e isso precisa ser respeitado e cuidado. Por isso que, aqui no Escuta, oferecemos os momentos de Brinquedoteca livre além dos momentos de atividade dirigida.

Crianças que passam por inúmeras intervenções médicas, por acompanhamento ou tratamentos, podem vir ou não a gostar de brincar de médico. Umas podem reproduzir a aversão e “violência” a qual se sentem submetidas, como podem extravasar suas angústias e sofrimentos sentidos naquela situação. Cenas como a representação da sala de aula podem mostrar como se dão as relações do mestre e do aluno em sala de aula, que pode ser muito legal e rica de trocas, ou também invasivas, dependendo de sua relação com a escola. Não é raro que essas brincadeiras apareçam na Brinquedoteca do Escuta, até porque são experiências cotidianas que as crianças vivem passivamente, e que podem reproduzir de forma ativa no contexto do brincar livre e ainda, pasmem!, submetendo os adultos ao que elas foram submetidas!

No ano de 2018 fiz uma formação como Agente do Brincar, pensando em me aprofundar nesse tema e trazer novas estratégias – e até um novo olhar – para minha atuação com as crianças no Escuta. A aula que mais marcou minha vivência no curso dos agentes do brincar foi a da Dafne, a Dra. Brincadeira, com toda sua naturalidade em tratar de assuntos delicados e importantes e toda sua magia e conhecimento profundo; sem contar que o que fez mesmo a diferença é que ela acredita que o brincar é terapêutico, é amor, é relacionamento, é prazeroso e promove um bem imensurável quando é de verdade.

E é essa mesma magia e conhecimento profundos que quero transmitir para vocês na nossa live de amanhã, às 17h, junto com a Dra. Brincadeira, na página do Instagram do Escuta. O convite para a Dafne veio através dessa nossa experiência juntas, que eu faço questão de compartilhar com vocês para que todos possam se beneficiar.

Até amanhã!

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