O que o filme ‘Som do Silêncio’ nos ensina sobre a importância da equipe multidisciplinar no acolhimento e orientação de pessoas diagnosticadas com surdez

Por Carla Olavarria Rigamonti

O “Som do Silêncio” (do inglês “Sound of Metal”, que numa tradução direta seria “O Som do metal”) é um filme sobre Ruben, um jovem baterista que perde repentinamente a audição. Esse é a história principal, e a partir daqui o texto contém – muitos – spoilers. É possível ter uma série de reflexões para pensarmos sobre a surdez súbita do protagonista, desde o quanto isso afeta a sua vida em uma banda de metal – composta por ele e pela namorada, que viviam na estrada, tocando por onde passavam; até questões mais complexas como, por exemplo, a língua de sinais sendo introduzida como forma primária de comunicação de uma pessoa cuja primeira língua é oral.

A reflexão que eu gostaria de propor aqui, no entanto, é a respeito da importância da escuta e da intervenção de uma equipe no processo do implante coclear. Que pulo, né? Sim, afinal a maior parte do filme se passa com Ruben numa comunidade de usuários de drogas em recuperação, como ele, cuja primeira língua é a língua de sinais. E o filme é muito fiel nesse momento, trabalhando com atores surdos e, inclusive, tendo como importante coadjuvante um ator que é “filho ouvinte de pais surdos”, o Joe, que é quem recebe e insere Ruben nessa comunidade.

Acho que esse é justamente o meu incômodo ao ver o filme: tem uma preocupação tão grande e cuidadosa em mostrar a importância da inserção de Ruben nessa comunidade surda, e o quanto isso é fundamental para que ele não volte a usar drogas como estratégia para lidar com a perda enorme que acabou de viver, ao passo que a parte do implante coclear fica negligenciada, simplista até.

Na comunidade, Ruben fica imerso. Tem que deixar tudo de sua vida antiga, para passar a viver uma nova realidade, conhece outras pessoas, e vai aprendendo a língua de sinais. Esse retrato é lindo, e emociona (inclusive, nesse ponto, acho válida a leitura do capítulo sobre surdez no livro “Longe da árvore”, de Andrew Salomon, no qual ele explora a importância dessa imersão na comunidade surda para o aprendizado e a transmissão da cultura).

E por que eu quero falar sobre o implante coclear? O que é que me incomoda?

Bom, logo que tem sua surdez diagnosticada, o médico fala para Ruben sobre o implante. O protagonista, então, quer fazer a cirurgia logo e poder voltar à vida normal, mas o médico explica que a cirurgia é cara e complexa. Com isso, Ruben acaba indo para a comunidade surda, justamente porque a preocupação principal de sua namorada, Lou, é que ele não volte a usar drogas. Justo. Sob protestos e muito sofrimento, ele segue para a comunidade, e lá ele aprende, se engaja, ensina. Enfim, parece que ele está bem, e aí de repente ele vende todos seus instrumentos musicais e seu trailer, liga para marcar uma consulta com uma audiologista, e poucas cenas depois ele aparece fazendo a cirurgia, para então acordar com a cabeça enfaixada, com a audiologista do lado dele, escrevendo em uma lousa que a ativação será em QUATRO semanas.

Sério. É assim que acontece – ou seja, antes da cirurgia ele não sabia que entre o procedimento cirúrgico e a ativação tinha um intervalo de quatro semanas.

Vamos falar sobre manejo de expectativas? Ninguém fala para o Ruben, antes da cirurgia, que ele nunca vai voltar a escutar como antes. Ninguém diz que os resultados levam tempo e trabalho para acontecer. Ninguém explica que, se um dia ele conseguir voltar a tocar, não será em questão de meses. O que o Joe, líder da comunidade de surdos, fala (e eu acho isso bonito), é que na comunidade em que eles vivem, ninguém vê a surdez como algo a ser consertado.

Mas a gente não pode falar que as pessoas disseram, avisaram, e o protagonista não quis entender. Na verdade, ninguém contou a real para o Ruben.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) prega o atendimento de uma equipe multidisciplinar para atender candidatos ao implante coclear e implantados justamente para evitar esse tipo de situação. Vamos, então, fazer uma pequena análise do que faltou ao Ruben?

  1. Assistente social: é importante saber que Ruben não tem uma renda fixa e que usou todo o seu dinheiro e seus bens para pagar pela cirurgia e pelo aparelho. Como ele vai fazer os próximos mapeamentos? E a terapia fonoaudiológica? Ele tem convênio? E se e aparelho quebrar? Ele sabe da importância de ter uma poupança, ou alguma fonte de renda para a manutenção do aparelho? Sendo deficiente auditivo, Ruben passa a ter algum benefício municipal ou federal?
  2. Psicóloga (o): qualquer questionário de manejo de expectativas apontaria para a clara negação de Ruben em relação à surdez. Inclusive, parece que todo o seu processo de inserção na comunidade surda serviu para ele se reorganizar e voltar exatamente ao mesmo ponto: recuperar a antiga vida dele. A psicóloga poderia ouvir a posição subjetiva de Ruben, compreender o momento do seu processo de elaboração do trauma da surdez súbita, explorar os ideais inconscientes que ficaram em jogo com essa perda. Sobre esse ponto, pela minha experiência no Escuta, posso dizer que os pais falam que não conseguiam “ouvir” (ou acreditar, se ligar mesmo) quando a psicóloga falava sobre expectativas antes da cirurgia de implante do filho, mas quando, posteriormente, a “ficha caía”, ter tido aquela conversa era uma referência fundamental para eles.
  3. Avaliação fonoaudiológica: sério, ninguém falou para o Ruben que o implante só seria ativado quatro semanas depois da cirurgia. Sem comentários.
  4. Médico: aparece no momento do diagnóstico, na cirurgia, e nunca mais. (Médicos, que cicatriz é aquela?)
  5. Terapia fonoaudiológica: Ruben não faz nenhuma sessão. Nada. Inclusive, não me lembro de terem falado para ele que isso era importante. E apesar disso, há uma discussão sobre o quão realistas são os resultados dele nesse texto da ACI Alliance (Associação Americana de Implante Coclear) (https://www.acialliance.org/page/SoundofMetal) : “É notável quão rápido Ruben foi capaz de se comunicar oralmente logo após a ativação dos seus implantes (…) Isso após uma total inabilidade, anterior ao implante, de entender fala”

Na minha opinião, um filme que trata de forma tão ingênua o processo de avaliação e acompanhamento de pacientes implantados tem um incrível poder: de afirmarmos, mais uma vez, a importância do trabalho que fazemos e a profundidade emocional e social dos efeitos de uma perda auditiva súbita. A famosa negação e o luto são processos inconscientes, intensos, e sem tempo determinado. Cabe a nós, como equipe, e junto com a família, trabalhar justamente com isso. Ou seja: esse é o nosso material.

E para concluir: o filme é ótimo. Se vocês não viram, aqui no Brasil ele está disponível pela Amazon Prime. Ele é lindo de ver e emocionante de ouvir – eles fazem inclusive uma simulação muito bacana do som que Ruben ouve com o implante. Vale a pena 😉

Ajudando as famílias a aceitar a tecnologia

Bem vindo a Galeria de Vídeos do Instituto Escuta :)

Para acesso ao conteúdo restrito digite seu EMAIL e SENHA cadastrados em nosso sistema.

Você sabe o que é o FM?

Por Elisa De Biase Hopman

Sabemos que a adaptação dos aparelhos auditivos é o início de uma possibilidade para melhorarmos a audição de uma criança que teve o diagnóstico de perda auditiva. Mas não são todos os ambientes que favorecem uma acústica ideal para o entendimento da fala, principalmente na escola, onde a necessidade de atenção e escuta é grande, mas os ruídos são muitos!

Portanto, o sistema de transmissão sem fio, ou sistema auxiliar de escuta (conhecidos popularmente como sistema FM) é uma tecnologia que dá a possibilidade de a criança ouvir num ambiente não tão propício acusticamente pois ele permite a melhora do sinal x ruído, otimizando a percepção de fala e diminuindo assim a distância entre o interlocutor e o ouvinte.

Atualmente, outras tecnologias estão sendo usadas (Esturaro et al 2016). Uma delas é o sistema adaptativo, que mesmo tendo outro tipo de tecnologia, possui o mesmo benefício do FM com a vantagem de possibilitar melhora na qualidade do sinal x ruído e maior clareza na fala do interlocutor.

O FM pode ser usado nos dois dispositivos: aparelho auditivo e/ou implante coclear. Vem acompanhado de um transmissor e um receptor. O transmissor tem um microfone sem fio e fica com quem fala e o receptor se encaixa no aparelho auditivo da criança. A fala que é captada pelo microfone é enviada para o receptor que está no aparelho auditivo. (Bertachini et al 2015).

Desse modo, o uso do FM na escola é muito necessário, pois a fala do professor estará mais clara e com menor competitividade de ruídos e reverberações, garantindo ao aluno um aproveitamento muito melhor das aulas. Além do aluno com deficiência auditiva ser beneficiado, a criança sem perda auditiva periférica que apresenta um deficit de atenção e/ou desordem no Processamento Auditivo Central (PAC) também pode aproveitar dos benefícios deste sistema. (Lemos et al 2009)

O sistema FM pode ser usado fora do ambiente escolar, em situações como brincadeiras ao ar livre, conversas no carro (principalmente quando o paciente estiver conversando com o motorista no banco de trás) ou durante algum evento social. Inclusive, de acordo com uma postagem do perfil @terapiaauditivaverbalportugues, que cita Jane Madell: “90% do que as crianças aprendem, o fazem “ouvindo por acaso”. Se os filhos não ouvem seus pais quando estão a poucos metros de distância, eles não têm a capacidade de ‘ouvir por acaso’. Microfones remotos permitirão que eles ouçam à distância e com ruído competidor”. Essa ideia reforça a importância e os efeitos do uso desses sistemas mesmo fora da sala de aula, facilitando o aprendizado incidental da fala.

Quer saber mais sobre os sistemas auxiliares de escuta? Esse é o tema da palestra da Prof. Dra. Regina Tangerino no nosso simpósio. Nessa ocasião você poderá aprender e tirar suas dúvidas! Faça sua inscrição pelo link: https://www.sympla.com.br/surdez-e-escuta-simposio-internacional-multidisciplinar-sobre-surdez-na-infancia__987117

Nossas rodas de conversa

Por Marianni Costa

Pertencer, fazer parte, participar de algum grupo é algo fundamental e muito importante na vida de qualquer pessoa, independente da fase ou situação que esteja vivendo. Aqui no Escuta, a cada encontro que promovemos, assistimos e participamos, vemos que, para as famílias que estão conosco, não é diferente.

É como se o caminho que estão percorrendo e os desafios que certamente virão se tornassem mais leves. Compartilhar momentos e experiências relacionados a todo o processo – do diagnóstico a todo o período de intervenção, dos sentimentos receosos às conquistas concretas ou frustrações indesejáveis – com outras famílias que já viveram, estão vivendo ou que viverão momentos semelhantes, não os deixam sentirem-se únicos e solitários.

Os encontros e as trocas ajudam a desmistificar e amenizar culpas, fracassos, rigidez, entre outros sentimentos e pensamentos que sempre surgem. O compartilhar de experiências fortalece as famílias mutuamente, além de favorecer o aparecimento da empatia e solidariedade.

Diversos estudos mostram que, para que algo seja aprendido com mais facilidade, é necessário que o afeto esteja envolvido. É preciso emocionar, tocar as pessoas e é isso o que acontece nos nossos grupos. Os pais são tocados, dividem as alegrias, as incertezas, as dúvidas e as tristezas, contando suas experiências. As vivências relatadas não são exclusivamente sobre a surdez, aparelhos auditivos e implante coclear. Tem muito assunto: sono, fralda, alimentação, brincadeiras, comportamento das crianças e como lidar com ele.

De vez em quando, também aparecem umas trocas de receitas, umas piadinhas, algumas curiosidades sobre temas inusitados, músicas e muito mais. É claro que dicas de como fazer para que algo funcione melhor com relação à perda de audição das crianças é o que mais faz sucesso entre as famílias: como prender o dispositivo para não cair da orelha toda hora, duração de pilha, desumidificador, acessórios que gostam de usar, como fazer com o plano de saúde para cobrir as sessões e por aí vai… As famílias dividem angústias, pedem orientação para os profissionais do grupo e para outras famílias que também compartilham seus erros e acertos.

Desde março desse ano, nossos encontros acontecem virtualmente e nós do Escuta apresentamos um pouco de teoria sobre um tema que consideramos interessante para o grupo ou que o próprio grupo sugere. Fica evidente que, durante a discussão das informações apresentadas, a exposição de uma vivência relacionada ao tema por algum integrante do grupo enriquece muito o encontro, fornece mais sentido ao conteúdo apresentado e gere mais resultados no que diz respeito à compreensão do que foi conversado.

Por aqui, aprende-se muito com cada família, com cada história, com cada dúvida, com cada choro e com cada sorriso que aparecem nos nossos grupinhos!!!

#SetembroEmTodosOsTonsDeAzul: a iniciativa da Associação Nacional dos Surdos Oralizados

Por ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS SURDOS ORALIZADOS – ANASO

A ANASO foi criada em 22 de julho de 2019, contando com a parceria das seguintes Associações: AMADA de Manaus, ADEIPA do Pará e APASOD do Espírito Santo. A Associação Nacional dos Surdos Oralizados é uma sociedade sem fins lucrativos que tem como missão a promoção da conscientização sobre a deficiência auditiva e a divulgação dos surdos oralizados, suas especificidades e necessidades.

Desde sua fundação a ANASO, através de ações junto a órgãos governamentais e em publicações em suas redes sociais, tem mostrado o quanto se faz necessário mostrar que os campos de (re) habilitação da surdez, bem como as áreas de educação e cultura, com a evolução cientifica e tecnológica, evoluíram e profundas mudanças aconteceram.

Hoje, graças as tecnologias auditivas, é possível o surdo ouvir e ter como forma de comunicação a oralidade, fato desconhecido pela maioria da sociedade que tem a visão de que todo surdo é incapaz de ouvir, mesmo com uso de tecnologia e se comunica somente pela Libras (Língua Brasileira de Sinais).

Atualmente, há dois Projetos de Lei, um proveniente do Senador Romário e outro proveniente da Senadora Zenaide que, devido a forma como foram escritos, dão margem para uma possível má interpretação, ferindo o direito de escolha do surdo oralizado e sua existência na educação entre outros setores.

Sendo a educação a principal bandeira da ANASO, lutamos pela criação de diretrizes educacionais especificas para estudantes surdos oralizados, que não envolve Libras. O que não significa sermos contra, apenas optamos por um atendimento educacional diferente. Para estes, o trabalho é multiprofissional, ou seja, realizado entre professores, psicopedagogos, fonoaudiólogos e com a participação efetiva da família para que se desenvolva um plano educacional individual que atenda as especificidades da criança, algo que já é previsto pela Lei Brasileira de Inclusão.

Também faz-se necessário que o MEC disponibilize a capacitação de professores à cerca dos recursos tecnológicos de apoio em sala de aula, como o sistema FM. Hoje quando uma família chega a escola com sua criança surda, muitas vezes em processo ou já oralizada, as escolas oferecem somente o atendimento em Libras, que se limita a presença de um interprete em sala de aula. Ao informar que a criança não tem contato com a língua de sinais, que é oralizada, que usa aparelho auditivo, a escola entende que não há necessidade de adaptações, mesmo porque não recebem nenhum tipo de orientação e, essa criança é vista como sendo ouvinte.

E esse olhar reducionista, de que a criança aprende através da Libras ou aprende igualmente a seus pares ouvintes, é a raiz do problema. Porque a partir do momento em que o processo de inclusão escolar fica aquém do esperado, a culpa sempre recai sobre a família, ou seja, pelo não uso da língua de sinais e não pela falta de metodologias adequadas e especificas para as crianças surdas oralizadas e usuárias de tecnologias auditivas.

Desta forma, esbarramos mais uma vez no olhar sociocultural em que se dissemina a ideia de que a criança surda somente aprende com a língua de sinais, que essa é sua única forma de comunicação e opção de caminho educacional! E foi nesse quadro onde vemos a inexistência social de um olhar pelo surdo oralizado, que ganhamos duas aliadas de peso! A comunicadora, escritora e palestrante Lak Lobato, criadora do blog “Desculpe, não ouvi” e a cientista social, escritora e palestrante Paula Pfifer, criadora do blog “Crônicas da Surdez”. Que assim como nós, lutam para mudar essa visão parcial e simplista sobre a surdez e que possuem grande representatividade!

E foi unindo forças por um bem comum, que surgiu a campanha “Setembro em Todos os Tons de Azul”, porque precisamos de um olhar diferenciado e democrático do Poder Público e da sociedade em geral acerca da existência, necessidades de acessibilidade, inclusão, direito de escolha e, sobretudo no contexto sociocultural, pois nem todo surdo fala em Libras ou pertence à comunidade surda sinalizada.

Com o objetivo de mostrar as múltiplas facetas da comunidade surda que vai muito além da Libras. Com Lak, Paula e um time de pessoas com mentes brilhantes contribuindo com sugestões e ideias para a produção de posts e vídeos informativos e a ANASO e suas associações parceiras contribuindo na divulgação, a campanha está nas redes sociais conquistando e marcando presença neste mês em que se comemora as conquistas das pessoas com deficiência auditiva.

Acreditamos que o mês de setembro será um marco para todos nós! Estamos focados em mostrar que o surdo oralizado também tem o direito de celebrar suas conquistas! São pessoas que buscam superar as barreiras impostas pela sociedade em que vivem. Que lutam pelo direito de existirem e serem o que desejarem, sem amarras ideológicas!

Os surdos oralizados não querem sobre si um olhar capacitista. Eles são mais que uma deficiência! São pessoas como qualquer um, com limitações (e quem não tem?), mas que encontraram na tecnologia um meio para desenvolver todo seu potencial e provar para si e para todos que quando aberta a porta da oportunidade, eles são capazes de realizar qualquer coisa com PERFEIÇÃO! Viva a diversidade! Viva a liberdade! Viva ao Setembro em Todos os Tons de Azul!

 

Nessa semana fazemos aniversário de 9 anos, sabiam?

Por Carla Rigamonti

O Instituto Escuta começou, na verdade, como Programa Espaço Escuta, e ele era um projeto de Responsabilidade Social dentro da Politec Saúde, que é responsável pela importação do implante coclear da marca Cochlear para o Brasil. Nessa época nós fazíamos parte da Politec Saúde, e foi assim até 2014, quando fechamos as portas da nossa primeira sede para nos dedicarmos exclusivamente, durante um ano, à autonomia do Escuta, transformando ele numa Organização da Sociedade Civil, e trazendo ele de vez para o terceiro setor, como Instituto Escuta. Em 2016 abrimos as portas da nova sede, onde ficamos até o começo desse ano. E, mais uma vez, fechamos para podermos crescer! A nossa casa nova está linda e sendo cuidado de todas as formas (estrutural e técnica) desde março desse ano.

Ao longo desses 9 anos fomos também entendendo melhor qual é o nosso papel junto às famílias de crianças surdas. Desde o começo apostamos na espontaneidade das relações e nos grupos (tanto de crianças como de cuidadores) como espaços muito potentes de trocas para o desenvolvimento de linguagem e a qualidade de vida da família como um todo. Mas fomos definindo outras coisas com o amadurecimento, como, por exemplo, o quanto nosso tripé técnico (Psicologia, Fonoaudiologia e Serviço Social) é imprescindível para atender as famílias que frequentam o Escuta.

Desde o início enfatizávamos que a proposta do Escuta não era de oferecer terapias individuais, pois sabíamos que isso as crianças já teriam em outros lugares. Mas com o tempo, pudemos entender que nosso trabalho tem um efeito terapêutico, sim. E que, junto à escola e às outras terapias, pode promover uma qualidade de vida e de comunicação muito melhores para essas famílias. Em 2020, com a necessidade de ficarmos dentro das nossas casas, muitas crianças ficaram sem terapia fonoaudiológica, mas o Escuta seguiu sendo um espaço (virtual) ao qual os cuidadores podiam recorrer e trocar experiências, construindo respostas e recursos para o que nenhum de nós estava preparado.

Nesse aniversário não podemos nos abraçar ou cantar parabéns juntos (imagina assoprar velinhas em cima de um bolo em 2020?). Mas temos muitos motivos para comemorar – uma nova sede, novos grupos, relações fortalecidas mesmo com a distância. E temos também motivos para ter esperança: da gente voltar a brincar juntos na brinquedoteca, montar nossa roda de grupo de pais, comer aquele biscoito de polvilho no lanchinho aglomerados. E, claro, esperança de comemorarmos nosso 10 anos juntos, fazendo a nossa farra habitual, com muita bexiga e sujeira de festa no chão, por favor 😉

Inauguração do Programa Espaço Escuta, na Politec Saúde.

Brincar é coisa séria

Por Luciana Scarabeli 

Brincar é uma grande bobagem que inventaram, e que as crianças fingem gostar. Tudo é uma grande besteira, os adultos ficam sem paciência e as crianças só aprontam, inventam moda e tem ideias mirabolantes para importunar o sossego dos adultos, enquanto deveriam se ocupar trabalhando ou fazendo algo útil. Lugar de criança brincar é na escola, as professoras são pagas para isso, não tenho tempo nem paciência para brincar, fica aquela bagunça e quem guarda depois? Ninguém! Fica tudo jogado pela sala!

Prefiro colocar todos os brinquedos na prateleira bem no alto para ficar organizado, assim as crianças não vão ver e assim não vão pedir nada, ganho tempo para fazer o jantar e não fico irritada, melhor mesmo é quando ficam entretidas no celular ou assistindo televisão, melhor do que jogar bola na sala e quebrar tudo, e nem adianta pedir a ajuda da avó porque se deixar com ela é pior ainda, não dá limite mesmo!

Procurei ser a mais cruel das mães, cuidadora e educadora, nestes primeiros dois parágrafos, mas apesar de ter que fazer um esforço para escrever estas frases, por alguns instantes, pensei como estes pensamentos podem ser uma grande verdade para muitos adultos que convivem com crianças pelo mundo afora. Como é difícil para nós, adultos, entendermos o mundo das crianças, não é?

Vamos então retomar alguns pontos de importância do brincar? Para começar, ele é um ato que propicia aos bebês e crianças a possibilidade de se constituírem enquanto indivíduos, é a oportunidade de serem protagonistas de suas próprias escolhas, aprendendo as coisas do mundo e da sua cultura, tendo relação direta com a sociedade em que o sujeito vive e se relaciona.
Pelo brincar experimentamos as relações com o outro, enfrentamos as situações adversas, do ganhar e perder, conquistar, alcançar, e, formamos grupos de interesse entre os pares. Não há nada dado como certo ou errado: é a construção de trocas e de vivências únicas e de elaboração que a criança tem para externar o que está vivendo.

É pelo brincar também que se faz possível perceber situações de sofrimento e violência em que a criança viveu ou a que está sendo submetida. Nesse sentido, o brincar tem que ser livre de preconceitos e de formas adequadas que precisam ser seguidas, cada agrupamento infantil tem uma forma de brincar e isso precisa ser respeitado e cuidado. Por isso que, aqui no Escuta, oferecemos os momentos de Brinquedoteca livre além dos momentos de atividade dirigida.

Crianças que passam por inúmeras intervenções médicas, por acompanhamento ou tratamentos, podem vir ou não a gostar de brincar de médico. Umas podem reproduzir a aversão e “violência” a qual se sentem submetidas, como podem extravasar suas angústias e sofrimentos sentidos naquela situação. Cenas como a representação da sala de aula podem mostrar como se dão as relações do mestre e do aluno em sala de aula, que pode ser muito legal e rica de trocas, ou também invasivas, dependendo de sua relação com a escola. Não é raro que essas brincadeiras apareçam na Brinquedoteca do Escuta, até porque são experiências cotidianas que as crianças vivem passivamente, e que podem reproduzir de forma ativa no contexto do brincar livre e ainda, pasmem!, submetendo os adultos ao que elas foram submetidas!

No ano de 2018 fiz uma formação como Agente do Brincar, pensando em me aprofundar nesse tema e trazer novas estratégias – e até um novo olhar – para minha atuação com as crianças no Escuta. A aula que mais marcou minha vivência no curso dos agentes do brincar foi a da Dafne, a Dra. Brincadeira, com toda sua naturalidade em tratar de assuntos delicados e importantes e toda sua magia e conhecimento profundo; sem contar que o que fez mesmo a diferença é que ela acredita que o brincar é terapêutico, é amor, é relacionamento, é prazeroso e promove um bem imensurável quando é de verdade.

E é essa mesma magia e conhecimento profundos que quero transmitir para vocês na nossa live de amanhã, às 17h, junto com a Dra. Brincadeira, na página do Instagram do Escuta. O convite para a Dafne veio através dessa nossa experiência juntas, que eu faço questão de compartilhar com vocês para que todos possam se beneficiar.

Até amanhã!

Terapia em tempos de pandemia 

por Elisa De Biase Hopman 

-“Olá, bom dia! Podemos começar? Te chamo!”

Assim começa o dia dos muitos atendimentos on-line que, desde março de 2020 com a chegada da pandemia atual, passamos a usar. O Ministério da Saúde permitiu o uso do teleatendimento seguindo a PORTARIA Nº 467, DE 20 DE MARÇO DE 2020 favorecendo a continuidade dos trabalhos de consulta e terapias. Ufa, que bom! Mas e agora?

Aqui no Escuta perguntamos: o que fazer com as estratégias que foram pensadas e organizadas? Como serão esses próximos atendimentos? As respostas vieram devagarzinho, junto com muita pesquisa de novas técnicas e atividades que fizessem sentido para as crianças; e junto também com o fazer terapêutico, com a realização de cada encontro on-line, sentindo cada demanda!

Portanto, por meio das técnicas terapêuticas e das possibilidades da tecnologia, pudemos continuar o trabalho com as famílias e com as crianças; e sim, estando perto! Perto de outra forma, através das janelinhas da plataforma, vendo cada cantinho da casa escolhido pelas famílias; e as famílias nos vendo, nos recebendo, nos guiando nesse trabalho. Foi e está sendo lindo!

Com essa nova experiência, percebemos que o teleatendimento nos trouxe novas formas de trabalho, novas possibilidades.

Através dele, pudemos nos aproximar de mais famílias queridas, que pela distância física jamais teríamos tido a oportunidade. Ele veio para somar, nos dando a certeza que o acolhimento não é feito somente de encontros presenciais, de protocolos feitos. E que, mesmo nesse momento tão singular, pudemos continuar com o que a gente acredita e fazer dar certo!

Nossa experiência no Simpósio online da AG Bell Association

Por Bruna Capalbo Youssef

No último mês participei do Simpósio da Agbell: Listening and Spoken Language Symposium. Este foi dividido em duas partes, uma online e outra virtual, ou seja, tínhamos acesso a todas as aulas gravadas no simpósio online por três semanas.

Foi uma experiência incrível assistir aulas sobre a importância da família no processo terapêutico, estratégias para pensarmos mais e melhor sobre questões fisiológicas do paciente, como o nervo auditivo e estratégias para potencializar a terapias, entre outros temas.

Imagem: AG Bell

O que foi muito abordado e muito interessante, foram as estratégias de teleatendimento. Esse tipo de atendimento é muito comum nos Estados Unidos, mas não na nossa realidade clínica. Agora, se tornou fundamental em tempos de pandemia. Falou-se muito no uso de aplicativos para várias funções como jogos interativos, tradutores simultâneos e até mesmo de legendas ao vivo.

Falou-se muito também sobre a importância do uso da sua tela (em video conferências) dentro das estratégias terapêuticas, como, por exemplo, para colocar no fundo imagens de algo que você quer trabalhar na terapia dessa semana.

É muito interessante como a forma de pensar deles é muito diferente da nossa e ao mesmo tempo muito parecida. A inclusão da família no processo terapêutico, principalmente quando falamos de crianças pequenas, se torna fundamental, e é o que preconiza a Terapia Auditiva-Verbal, abordagem terapêutica que serve como base e referência para as atividades do simpósio.

Nesse formato de terapia a família é a parte mais importante do processo, pois são eles que ficam a maior parte do tempo com a criança. Dessa forma, nós terapeutas, devemos orientar os pais (ou cuidadores) sobre as estratégias terapêuticas, tornando-os figuras protagonistas do trabalho e da prática terapêutica no lar. Sempre devemos ter em mente que a efetividade da Terapia Auditiva-Verbal está ligada a como orientamos e trabalhamos com a família.

E você, o que acha desse tipo de abordagem terapêutica? Vocês conhecem a Terapia Auditiva-Verbal?

Imagem: AG Bell